sexta-feira, 9 de abril de 2010

Experiência com AYAHUASCA

Vislumbre da ilusão do Eu




O trecho a seguir, de um livro de Alan Wallace, cabe como uma luva para o que pode acontecer em uma experiência enteógena:



A tradição budista tibetana aconselha a não penetrar na natureza do altruísmo antes que a mente esteja pronta. Se a mente não estiver adequadamente preparada, quando acontecer um vislumbre de insight sobre a profunda realidade do vazio da própria identidade, ele será experienciado como a perda de um tesouro muito querido.

Contudo, se a mente, primeiro, tiver sido cuidada com compaixão, então, quando houver um vislumbre da ausência de identidade pessoal, esse insight será vivenciado como a descoberta do mais precioso de todos os tesouros.

Se a realização do vazio é percebida como uma perda ou uma descoberta, depende do grau de preparação da pessoa. O insight no contexto da compaixão é uma descoberta maravilhosa. A sabedoria sem compaixão é escravidão -- o insight do vazio da identidade pessoal sem compaixão pode ser percebido como a perda do ser e levar ao terror.



B. Alan Wallace (EUA, 1950)


"Budismo com Atitude", cap. 2 (via blog Samsara)






Em sessões de ayahuasca, já me aconteceu de começar a me perder, de olhar para minhas memórias e não as reconhecer como minhas, de sentir a identidade começar a derreter, evaporar, de não saber mais quem -- ou o que -- eu era, no sentido de descobrir que aquilo que pensava ser "eu", isso é só uma camada insignificante.

Na primeira vez que isso aconteceu, senti uma confusão tão grande que entrei em pânico. E esse pânico foi puxando outros sentimentos como inquietação, aquele clássico questionamento "o que é que estou fazendo aqui?!!" -- típico de peia -- e raiva. Foi horrível!

Na segunda vez que passei por essa "despersonalização", anos depois, já estava mais familiarizado com os ensinamentos budistas sobre vacuidade, ilusão do eu, identidade verdadeira, natureza além do ego...


Pensei:

-- Pronto! Tá acontecendo de novo: perda do ego! Ótimo, vamos lá!

Os sintomas foram exatamente os mesmos da primeira vez. Mas o modo como reagi foi completamente outro. O resultado? A coisa mais gratificante, talvez, que já senti com ayahuasca.
Sim, realmente o ego é uma farsa. Há muito mais além do que aquilo que acreditava ser o "eu". E isso está em todo lugar, em todos, não só em mim! É isso que torna tudo possível. Inundação. Amor.
Mas acho que não vale muito a pena falar disso. Usar palavras para tentar descrever parece que estraga e modifica a memória da experiência. Deixa como está...

Coincidentemente ou não, o autor do trecho citado, Alan Wallace, é o professor de meditação de Myron J. Stolaroff, autor do artigo "Psicodélicos são úteis na prática do budismo?".




Fonte: www.enteogenos.org

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